Ermida de Nossa Senhora dos Prazeres

Em memória de Manuel Chaves Carvalho

Do Livro “Igrejas e Ermidas de Santa Maria em Verso“

Na freguesia há cinco Ermidas

Que foram feitas à muitos anos

Recentemente reconstruídas

Pelos emigrantes americanos.

.

Prazeres, Santo António e Glória

Boa Morte e Piedade

Que fazem parte de história

Da nossa Comunidade.

.

.

Foi feita a construção

Duma Ermida pequenina

Por Manuel de Sousa Falcão

E sua esposa D. Cristina.

.

Domingues Corvêlo vinhateiro

Vigiava uvas numa vinha

De Diogo Fernandes Faleiro

Numa furna que ali tinha.

.

Porque tinha medo dos Mouros

Que eram uma grande quadrilha

Roubavam santos e tesouros

que encontravam na ilha.

.

Um dia os Mouros entraram

Pelo lado do Aveiro

Senhora dos Prazeres levaram

E o pobre do vinhateiro.

.

Foi de pés e mãos amarrado

Para não poder andar

Depois foi amordaçado

Para não poder falar.

.

Quando a filha chegou

Que vinha trazer o jantar

O pai já não encontrou

Porque já estava em alto mar.

.

Chegou à igreja e não viu

A santa no seu altar

Para a Calheta se dirigiu

Para a má notícia dar.

.

Os filhos logo pensaram

Que o pai tinha morrido

E os sinos da freguesia tocaram

Por alma do falecido.

.

O que ele no navio fazia

Era apenas viajar

Enquanto a quadrilha ia

Para outras terras roubar.

.

Pelo chefe foi convidado

Também para ser ladrão

Mas depois de se ter negado

Foi metido na prisão.

.

A sua aflição era tanta

À Senhora dos Prazeres dizia

Comprar uma imagem da Santa

Se fosse para Santa Maria.

j.

Já se estava a sentir

Doente e muito mal

Pediu aos Mouros para vir

Para a sua terra Natal.

.

Teve sorte em regressar

Porque os mais fraquinhos

Eram deitados ao mar

Para engodo dos peixinhos.

.

E os Mouros concordaram

Com o pedido do vinhateiro

Um certo dia o deixaram

Num porto chamado Aveiro.

.

Quando o homem desembarcou

Era escuro não se via nada

Mas à Calheta chegou

Às tantas da madrugada.

.

Quando à porta bateu

Espreitaram ao postigo

Ninguém o conheceu

Pensaram ser um inimigo.

.

Pensaram ser um Mouro mau

Porque não conseguiam ver

Cada um pegou no seu pau

Para se poderem defender.

.

E o primeiro que saiu

Atirou-lhe com o bordão

E o pobre homem caiu

Imediatamente no chão.

.

Com a pancada que levou

O homem deu um gemido

A mulher logo pensou

Que deveria ser seu marido.

.

Escapou e foi por sorte

Os ferimentos tratados

Com vinagre quente e forte

E cinza de trapos queimados.

.

O homem ao acordar

Quando a família viu

Aos filhos esteve a contar

O que se passou no navio.

.

Prometeu à Virgem Maria

Se à ilha tornasse a voltar

Um peditório descalço fazia

Para outra Santa comprar.

.

Poucos anos viveu

Após ter regressado

Na sua casa morreu

Da família acompanhado.

.

Foi cumpridor dos deveres

Rezava muito no navio

E a Senhora dos Prazeres

Os seus pedidos ouviu.

.

E quem a Maia visitar

Se for ao lugar do Aveiro

Ainda encontra o lugar

Onde se escondia o vinhateiro.

.

Deus quis-lhe tirar a vida

Para junto de si o levou

Morreu de doença contraída

Pelos lugares onde andou.

.

Esta cena foi acontecida

O homem apareceu vivo

Na história ficou conhecida

Pela lenda do cativo.

.

Manuel Chaves Carvalho

Esta é a ultima Ermida do livro “Igrejas e Ermidas de Santa Maria em Verso“, obra publicada em 2001, por este filho da terra e poeta popular; esta foi a singela homenagem ao homem e ao poeta.

Um especial agradecimento à família, pela autorização dada à publicação desta obra no Santa Maria Azores.

Infelizmente o livro esgotou, não estando prevista nenhuma nova edição, a menos que surjam interessados em tal empreitada.

.

A wikipédia diz:

História

A primitiva ermida foi erguida em 1685, defronte para o mar, cercada por vinhas, por Manuel de Sousa Falcão e sua esposa, Cristina, às próprias expensas.

Encontra-se referida por MONTE ALVERNE (1986) ao final do século XVII.

Foi recuperada em 1997 com recursos de um grupo emigrantes nos Estados Unidos da América e do Canadá.

A lenda do cativo

A história desta ermida encontra-se associada a uma interessante lenda, registada por CARVALHO (2001:78-82).

Domingos Corvêlo, vinhateiro de Diogo Fernandes Faleiro (ver Lagar de Diogo Santos Faleiro), vigiava as uvas em uma furna no lugar do Aveiro, quando por ali entrou, vindos do mar, um grupo dePiratas da Barbária. Após terem saqueado a ermida e roubado a imagem da padroeira, capturaram Corvêlo, levando-o amarrado e amordaçado como cativo. Quando a filha chegou com o jantar, como de hábito, não encontrou o pai. Chegando à ermida, encontrou-a aberta e despojada da imagem, correndo então para a Calheta para dar a notícia.

Dado como morto pelos filhos, Corvêlo foi mantido prisioneiro pelos piratas, por ter se recusado a juntar-se ao grupo. Desesperado, em sua aflição, prometeu à Senhora dos Prazeres adquirir uma nova imagem, caso conseguisse retornar a Santa Maria, vindo entretanto a adoecer. Muito mal de saúde, implorou aos Mouros o seu regresso, que dele se apiedaram, devolvendo-o ao lugar de Aveiro.

Desembarcando de noite, chegou à Calheta de madrugada, batendo à porta de sua própria casa no escuro. A família, pensando que era um malfeitor, armou-se de paus, saiu e agrediu o desconhecido, que caiu ao chão. A esposa reconheceu os gemidos do ferido, que foi então recolhido desfalecido e tratado – com vinagre quente e cinza de trapos. Ao acordar, narrou à família as suas desventuras, assim como a promessa feita à Senhora dos Prazeres, cumprida a seguir, por meio de um peditório descalço.

Corvêlo viveu mais alguns anos, vindo a falecer, no seio da família, de doença contraída nos anos em que esteve fora.