Ao longo dos próximos meses, vamos transcrever várias quadras populares, com muitos anos de existência, algumas baseadas em casos verídicos. Para que se preservem no tempo, estes textos que andaram de mão em mão e eram lidos e passados adiante, muitas vezes de geração em geração.
2 Irmãos
1
Jesus dai-me inteligência
Saber e boa memória
Para versar com paciência
Esta sagrada história
2
Esta cena vou versar
Com pé e não ansioso
É só para exemplo dar
A algum que seja invejoso.
3
A inveja matou Caim
Por ser mau e traiçoeiro
O mesmo sucedeu assim
A um malvado na terceira.
4
Na Terceira 2 manos
Para uma donzela olhavam
Um com vinte e dois anos
Outro dezoito anos contava.
5
Este que dezoito contava
Era quem a jovem queria
Para o outro não olhava
Nem seque vê-lo podia.
6
Como a jovem era bonita
O mais velho sempre tentou
Mandou-lhe uma carta escrita
Mas ela não aceitou.
7
A inveja lhe perseguia
Como ela não queria aceitar
Para se vingar um dia
Pelo mano foi esperar.
8
O seu rosto mesmo parecia
De uma assassino malvado
Numa noite turva e fria
Esperou-o num descampado.
9
Ali algum tempo passou.
Emboscado num arvoredo
Até que o infeliz chegou
Aquele profundo segredo.
10
Consigo ia falando
Sem mais nada pensar
Parece-me que estais gozando
Que eu mais logo hei-de gozar.
11
Nesta triste ocasião
Um vulto se atravessou
Era o seu cruel irmão
Que o seu corpo amarrou.
12
Tu aqui me vais pagar
Tudo quanto me tens feito
Agora te vou matar
Para viver satisfeito.
13
O infeliz ajoelhou
Pedindo a sua sorte
Deixa-me ver quem me criou
Depois então dai-me a morte.
14
Puxou uma faca comprida
E no peito a cravou
Abriu-lhe uma feia ferida
Que ele em sangue se escoou.
15
Receando sem mais vida
Disse em voz atribulada
Adeus Adeus mãe querida
Adeus saudosa amada.
16
Sem sangue caiu no chão
Os olhos ao céu levantou
Com dores e aflição
Num triste ai expirou.
17
Disse o malvado consigo
Depois de o ter assassinado
Já matei meu inimigo
Agora estou descansado
18
Sempre consegui matar
Dizia o malvado assim
Agora é que vou gozar
Aquele formoso jardim.
19
Já consegui o que queria
O que tinha intencionado
Vou para minha moradia
Deitar-me bem descansado.
20
Agora vou atravessar
Caminhos que eu não sei
Para bem de ocultar
O crime que pratiquei.
21
Estas palavras murmurando
Um vulto de negro viu
Que se vinha aproximando
Foi então quando fugiu.
22
Essa dita sombra escura
Com seu manto em couro até
Era uma bela criatura
Um velhote e rico viajante.
23
O velho se aproximou
Do morto seu conhecido
Cheio de horror ficou
Vendo-lhe sangue e ferido.
24
O velho com caridade
Vendo morto como estava
Foi dar parte à autoridade
Contando o que se passava.
25
Espalhou-se esta notícia
Por toda a freguesia
Foi o povo e a poilicia
Aonde o morto jazia.
26
Ao pé do morto chegaram
Disse o povo sem destino
Este pobre assassinaram
Quem seria o assassino.
27
Diziam a mesma sorte
Cada qual para seu lado
Quem lhe deu a negra morte
Precisava ser desgraçado.
28
Respondeu a autoridade
Para o povo se virou
Que triste infelicidade
Vai passar quem o matou.
29
Agora vamos sepultar
Este morto honrado e puro
Depois de o enterrar
Vamos então ao futuro.
30
Fizeram-lhe um caixão
Já o iam enterrar
Quando viram o irmão
Num pranto fingindo chorar.
CONTINUA…