PENTECOSTES: DA COLHEITA DO TRIGO AO NASCIMENTO DA IGREJA

Por: Francisco Dolores In “A União

Há cinquenta anos atrás, aqui nos Açores, as debulhadoras, que haviam substituído os tradicionais trilhos puxados por pachorrentas vacas, à volta das eiras de terra batida, também, começaram a sentir o fim de um ciclo que marcou a vida dos açorianos. Uma década depois foram abandonadas como obsoletas, pois não havia mais trigo para debulhar.

E os ajudantes dos Impérios de Santa Maria deixaram de aparecer, com as velhas sacas de linho, a esmolar nas eiras o trigo para as funções do Divino Espírito santo, como durante quinhentos anos o fizeram com a mesma finalidade. Importado de fora, vindo das Américas os pães de água e da mesa, bem como, as rosquilhas tiveram que se adaptar às novas farinha.

A Festa Judaica do Pentecostes, tipicamente das colheitas agrícolas do trigo (êxodo 23, 16), há cerca de dois mil anos transformou-se em dia do nascimento da Igreja, pelo “sopro de um forte vendaval” e as línguas de fogo, que se espalharam e foram poisar sobre cada um deles” ( Actos 2). As “armações de ramadas”, que nos adros das ermidas se montavam, trazem-nos um cheirinho hebraico da Festa das Tendas (Números 28 -29).

Com o cultivo dos cereais abandonado, e os braços dos que cultivavam a terra emigrados. E os bois desensinados do uso da canga, atrelada ao timão dos arados, no amanho das terras e dos “carros de bois”. Só que com o declínio do mundo rural, nestas ilhas a necessidade inata de gerações de celebrar os louvores do Divino Espírito Santo, supera todas as carências para que nos nossos dias nada falte, sobretudo aos mais velhos.

Nem a farinha das hóstias que os comungantes nas Missas, mesmo as de “coroação” é produzida nas nossas terras, feitas pasto, ou baldios à espera de melhor sorte. Os famintos é que estão a aumentar, tanto os de estômagos vazios e cintos apertados, como os carentes de uma fé viva, que os faça discípulos, mesmo nas adversidades da vida.

Tempos idos em que “pão alvo”, carne e vinho, só mesmo em dias de império, cujas copeiras abriam as portas a todos, mesmo aos que mal se benziam. As fomes não têm fé. Mas a Fé dos Cristãos, nascidos na Descida do Espírito Santo, não se pode ficar pelos templos, mas descer à partilha fraterna, com os irmãos mais carenciados de sempre.

Tempo oportuno, para olhar com esperança e gestos de amor, a maneira como se fazem as funções e bodos, por essas ilhas adiante. As funções e bodos não são para bajular quem quer  que seja. Mas para louvar o Divino Espírito Santo, nos velhos mendigos de sempre. Não apenas à mesa da Rainha Santa Isabel, mas na Igreja que somos e temos. Viva o Espírito Santo!

 


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